PASSARINHÃO PRETO, FEIO, DE BICO CURVO - J. D. Baggio - Consultor, Gerente Geral do Círculo dos Profissionais de Vendas.

Artur é um vendedor calejado, tem uma história com mais sucessos do que fracassos e sabe aprender com suas experiências. É segunda-feira, sete horas da manhã, as notícias da noite de domingo ainda estão em sua cabeça. Enquanto dirige o carro em direção ao trabalho, vai pensando na semana que terá pela frente. Já sabe que não vai ser fácil, uns com medo do dólar caindo, outros com medo do dólar subindo, a seca prejudicando os agricultores, enfim, iniciar a semana com o mercado pouco comprador é muito complicado, mas ele tem certeza que pode fazer alguma coisa para melhorar essa situação.

No final de semana conversou com a mulher, pensou nos filhos crescendo, na sua idade avançando e decidiu fazer as coisas de modo diferente. Decidiu que faria as coisas mudarem. Nos últimos dias ele havia passado muito tempo analisando o seu desempenho profissional, lembrou dos treinamentos que fez e das tantas idéias para vender melhor, tudo colecionado em livros, manuais e cadernos de anotações, mas que estão guardados em algum lugar sem utilização. Em alguns momentos teve um sentimento muito crítico de sua própria acomodação, das pequenas fraquezas que, juntas, se transformavam em grandes empecilhos ao seu desenvolvimento. Naquela manhã sua intenção era tornar-se um novo vendedor. Estava disposto a enfrentar os desafios com determinação, valorizando todo o seu conhecimento e experiências, ouvindo mais a si mesmo, dando mais atenção ao que diz o seu coração. Ele não podia mais tolerar aceitar as coisas como estavam. Era só não cruzar os braços, praticar as coisas que sabia, ser criativo otimista e trabalhar! Afinal, não havia outra forma de transformar sua vida se não fosse pela renovação de suas próprias atitudes.

Chegando à empresa, Artur foi para a sala dos vendedores, apenas para cumprimentar os colegas.

Enquanto atravessava o pátio repassou mentalmente o roteiro elaborado na noite anterior. Há muito tempo não planejava com tanto cuidado sua semana de trabalho. Tinha pensado em cada passo, cada visita, nos objetivos e nos argumentos contra os comentários em relações aos boatos e notícias da televisão. Entre as suas metas principais, uma das mais importantes era não se deixar impregnar por gente baixo-astral. Queria mudar a crise e não ficar falando dela. Próximo à sala dos vendedores já dava para ouvir o vozerio da moçada, as brincadeiras, o “papo furado” das segundas-feiras.

Artur foi cumprimentando os colegas e agüentando as provocações em razão do seu time de futebol estar na lanterna do campeonato. Alguns nem levantavam a cabeça, preocupados em fazer o planejamento do dia, preenchendo relatórios atrasados, coisas deixadas para a última hora.

Em torno da mesa estavam alguns dos seus melhores amigos, inclusive o Zé Carlos, um vendedor matreiro e experiente, um dos mais antigos na empresa. As suas reflexões no final de semana deixaram Artur mais observador, mais propenso a analisar o ambiente.

Talvez tenha sido isso que provocou suas lembranças enquanto ouvia o Zé Carlos. Lembrou-se de quando entrou na empresa e o Zé era imbatível em vendas, estava sempre “nas cabeças”. Era tão respeitado que ninguém podia deixar de escutar seus conselhos, ainda mais os novatos. Mas, ultimamente, o Zé Carlos vinha diminuindo suas vendas, já não tinha o mesmo pique e andava com cara de poucos amigos. Artur resolveu puxar conversa.

- Como vão as coisas, Zé?
- De mal a pior, respondeu secamente.
- É, as coisas não estão boas, mas estou determinado a dar duro esta semana e virar o meu jogo, rebateu Artur.
- Olha, vou lhe dizer uma coisa: Não adianta você se esforçar nesta empresa. Os caras só querem te explorar. Eu já desisti de brigar. Vou cair fora daqui, respondeu o Zé Carlos em voz alta para que outros ouvissem.
- E vai pra onde? - perguntou Artur num tom de desafio.
- Sei lá, mas não fico mais aqui. Os homens só cobram e não nos dão autonomia para vender. Você batalha, batalha e não é reconhecido.
A essa altura muitos deixavam o que estavam fazendo e olhavam para aquele ponto da sala, interessados em ouvir o desabafo de Zé Carlos. Aliás, todos os dias o Zé vinha fazendo um novo discurso contra tudo e contra todos.
O Zé continuou discursando: Esta empresa é uma merda. Vou trabalhar para o concorrente. Lá tem condições de trabalho para o vendedor. Aqui não. Só sabem encher o saco e cobrar resultados. O mercado já estava uma droga e agora com essa dança do dólar ......... ? Vocês estão vendo na televisão o índice de desemprego? O governo não faz nada.
Alguns vendedores balançam a cabeça, parecendo concordar. Lentamente, um a um, vão deixando a sala, com o andar cansado, como se as palavras do Zé Carlos tivessem atingido suas próprias cabeças.
O Artur fica por último. Mentalmente vai repassando tudo o que pensou e planejou no final de semana. Lembrou que, mesmo tendo sido sempre um bom vendedor, nunca tinha sido o campeão de nenhuma equipe. Normalmente era o segundo ou terceiro, mas nunca conheceu o gosto de ser o primeirão. Não conseguia entender isso, parecia terem rogado uma praga nele. Agora ele estava entendendo porque isso nunca aconteceu, mesmo com todas as qualidades que possuía. Artur levantou-se, pegou um pedaço de giz e foi até o quadro negro que usavam nas reuniões. Parou e olhou para aquele pedaço de giz com uma dignidade enorme, com um sentimento de segurança que não lembrava ter sentido em toda a sua vida.

Com a mão firme ele escreveu:

NESTA SALA COMEÇAMOS A SER VENCEDORES OU VENCIDOS, DEPENDENDO DO QUE OUVIMOS OU DIZEMOS.
O OTIMISMO E O PESSIMISMO PODEM NASCER OU MORRER NESTE LUGAR, TODAS AS MANHÃS.
ENQUANTO ISSO, O PASSARINHÃO PRETO, FEIO, QUE GOSTA DE CARNIÇA, CONTINUA A VOAR, PROCURANDO ALGUM VENDEDOR FRACO QUE LOGO, LOGO CAIRÁ NO SEU BICO.

DICA
- Às vezes, aprender é tapar os ouvidos, ser amigo é discordar, e ajudar é não dizer nada. Tudo depende de como calibramos nossas emoções diante de nós mesmos e da vida