E SE EU OUVIR UMA VALSA? - J. D. Baggio - Consultor, Gerente Geral do Círculo dos Profissionais de Vendas. Baseado em versão de domínio público.

Há alguns anos fui bisbilhotar os fundos de um circo e conheci lá um elefante simpático que ficava horas preso pela perna, comendo maços de capim. Fiquei impressionado com o contraste entre a sua serenidade e a força que o seu tamanho sugeria. Nos primeiros momentos do nosso encontro, cheguei a pensar que ele chorava. Seus olhos parados e tristes nem pareciam ser de um animal poderoso, que afundava o chão a cada pisada.

Apesar de nossos encontros serem espaçados, espremidos nas suas curtas temporadas na cidade, com o tempo acabamos nos tornando amigos e cada um procurou ver no outro o que havia de especial.

São fascinantes os seus relatos, desde os primeiros anos ainda na Índia, o afastamento de seus pais, a sua domesticação e a vida no circo. Ainda bem jovem ele foi levado para a Europa, onde começou sua carreira circense e aprendeu os primeiros passos de dança preso sobre uma chapa de ferro quente, ao som de valsas vienenses.

Em poucas semanas seu treinador húngaro já nem aquecia a chapa, bastando o som da música, os gritos de ordem e o estalar do chicote, e ele começava a bailar encantando as platéias.

Aplausos, viagens, novas paisagens, pessoas diferentes e ele foi acostumando com a carreira de elefante de circo. Quando já era elefante sênior foi comprado por um grande circo, onde está até hoje com todas as mordomias, comendo o melhor capim da cidade, corrente mais longa e usando um colar que lhe trouxeram da Índia para ligá-lo à sua cultura natal. Nesta sua última vinda à minha cidade passei a questionar a sua resignação, essa sujeição que não tem nada a ver com a sua natureza. Nunca se casou, não teve filhos e sequer lembra do cheiro de uma manada de elefantes.

O seu contra-argumento é de que na sua idade já não dá mais para sonhar com outra vida e que não saberia fazer outra coisa que não fosse ser elefante de circo. Além do mais – diz ele - já estava acostumado com o palhaço que lhe monta sobre a cabeça todos os dias, com o tratador carregando o feixe de capim, com o banho de mangueira.....

Continuei insistindo: Sei que suas alternativas não são muitas, mas você poderia ser atração de um zoológico, ao menos seria mais digno, poderia andar livremente sem a corrente presa na perna.

Minha surpresa foi ele dizer que há vários meses não tem mais nada preso na perna. Aquilo que se vê é apenas uma faixa de pano para esconder a marca da ferida, e dá a sensação de ser a presilha de aço na qual era engatada a corrente.

- Mas, então .... ? Se você não está mais preso, pule esta cerca e vá viver outra vida! A sua prisão é apenas uma ilusão, você é muito mais forte que todos aqui.

Ele baixou a cabeça, balançou a tromba e ficou pensativo. Eu sabia que aquele momento era muito difícil para ele, mas talvez fosse o mais importante de sua vida, o momento da mudança e da renovação. Devagar ele virou a cabeça, me olhou com aqueles olhos lacrimejantes e perguntou: - E se no caminho eu ouvir uma valsa?

PARA VOCÊ PENSAR
- Vá ao espelho e veja se tem um palhaço montado em sua cabeça. E não olhe para as suas pernas.